Sonhos, feminismo e música: o exemplo de Doro Pesch no Dia Internacional da Mulher


Há algumas semanas uma amiga conversava comigo, e me contou que estava ansiosa para ler o meu especial do Dia Internacional da Mulher desse ano. Fui meio que pega de surpresa, pois eu realmente esqueço que a data é em março, e não maio... Para mim todo o dia de comemorar as conquistas e alertar sobre as lutas da mulher é todo o dia.

Sim, eu sei. É clichê dizer isso. Concordo em 50% existir esse dia específico, mas os outros 50% me deixam na dúvida. A mulher é mulher nos 365 dias do ano, não só no dia 8 de março, sabe? É como a história das pessoas que brigam o ano inteiro e só se falam no natal. Nós focamos muito nas datas, e pouco nos significados delas. Mas mesmo assim, resolvi fazer meu texto.

Decidi falar sobre a figura feminina mais importante do metal, pois se não fosse por ela nenhuma de nós estaria aqui ou se estivesse, ainda viveria a Idade das Trevas do Metal: Doro Pesch. Pra você que não conhece, Doro tornou-se na década de 80 uma das primeiras vocalistas de metal com a criação do Warlock, dividiu palcos com bandas lideradas e formadas por homens (incluindo a sua própria), e foi uma das pioneiras a sacrificar a "vida normal" em prol do sonho.

Essa é uma descrição resumida da Rainha do Metal.


Nascida em 3 de junho de 1964 em Dusselford, Alemanha, Dorothee Pesch não tem marido nem filhos, algo que hoje em dia já é comum entre as vocalistas. Lembro super bem quando eu li ainda com inglês capenga essa entrevista onde perguntam sobre o assunto, e ela responde que está casada com a banda, a equipe e os fãs, e que esses são a sua família. Eu me imprssionei. Não só porque na época eu era novata nas histórias do metal, mas por ter sido criada nas bases da filosofia uma mulher deve casar e ter filhos.

É difícil quebrar um dogma. Eu mesma questiono isso, embora eu não critique a mulher que quer casar e ter filhos, feito muitas fazem. O mundo é livre, e eu mesma tenho essa vontade. Entretanto, o que eu critico é a obsessão com o casamento como se nada mais importasse, esquecendo de detalhes também importantes feito ter carreira e um pouco de amor próprio.

Outra coisa bacana da carreira da Doro é que ela sempre explorou a própria imagem. Afinal, o metal é isso, impacto visual. A vocalista sempre foi muito bonita e mostrou isso através de jaquetas, calças apertadas, cabelo comprido, caras e bocas de imagens promocionais do Warlock, revistas, vídeos, capas de LPs e CDs, mesmo quando desenhada em versão medieval meio Marvel.

(PS: sempre couro sintético, pois a vocalista aderiu ao PETA)

E eu não vejo mal nisso. Pelo contrário. Nós, homens e mulheres, temos que entender que ser atraente não obrigação (sem falar que a definição de "atraente" é relativa), mas também não é crime. Beleza é diferente de talento, os dois podem andar juntos, mas se você não tiver nada para oferecer ao mundo além do seu corpo... Isso sim é um problema.

Mas felizmente Doro Pesch mostrou ter os dois. Em 1987 o Warlock lançou Triumph and Agony, o álbum mais famoso, o primeiro que eu ouvi e o que eu mais gosto da banda. No mesmo ano ele alcançou a posição 80 da lista Billboard 200 americana. Bacana, certo? Deveras. O Warlock também emplacou os clipes de "All We Are" e "Für Immer" na MTV. (!!!)



Doro tem uma voz particular. Se eu pudesse comparar, é o equivalente feminino de Jorn Lande. Isso chamou bastante a minha atenção quando uma amiga do colégio me apresentou algumas músicas, entre elas "Burning The Witches". (se a memória não me trai)


Só que nem tudo são flores. Doro também teve problemas na carreira, e um dos maiores foi a má recepção nos Estados Unidos, isso após várias mudanças na formação do Warlock, brigas judiciais pelos direitos do nome e o fim da banda, fazendo ela partir para carreira solo. Apesar das tentativas, os americanos não receberam bem o seu som (diferente da Europa) e a PolyGram se viu forçada a interromper as vendas dos álbuns, pois o glam e o clássico vinham perdendo espaço para o grunge.

Saltando anos e anos, chegamos em 2015. Doro Pesch é uma lenda, mas nas entrevistas ela rejeita um pouco essa versão e prefere ficar com a mais "humana". Ela continua nos palcos, 30 anos e indo, acumulando erros, acertos, histórias e muitas lições para ensinar. No meu caso ela me ensinou 4 lições inspiradoras:

Doro e Dio

1) Igualdade: excluir os homens da luta pela igualdade de gênero é um erro, e grande. Doro Pesch ao invés de fazer os homens de inimigos, os fez de amigos. Ela mostrou e explicou que ambos os sexos podem ser líderes, destaques, reconhecidos e respeitados. O homem pode ser vocalista, e a mulher também pode. Ronnie James Dio pode ser o Rei do Metal, e Doro Pesch pode ser a Rainha.

Vou dar um exemplo pessoal: faço parte de um grupo no Facebook sobre a Fórmula Indy. Ano passado ele tinha cerca de 1.500 pessoas e eu era a única mulher participando. No começo tive medo de interagir, entrar no Clube do Bolinha, mas eu arrisquei. Os rapazes não só me receberam muito bem, como me trataram de igual para igual. Fiz até amizade lá. Com a temporada 2015 chegando minha expectativa é voltar a participar.

O tema oficial do Wacken, o maior festival de metal do mundo, é dela


Doro em sua participação no filme Anouk

2) Força: colocar um sonho em prática é tudo, menos unicórnios e coelhinhos coloridos. Você gosta de games e quer ser programadora? Seja. Gosta de futebol e quer ser jogadora? Seja. Gosta de mecânica e quer estudar mecatrônica? Estude. Você gosta de esportes e quer ser jornalista da área? Seja.

Eu gosto de heavy metal e ele tem sido parte mega importante na minha vida. Assisto corridas 2003, e atualmente acompanho 4 categorias diferentes. Às vezes assisto hóquei de gelo e torço pelo Detroit Red Wings. Sou gamer. Adoro Miss Simpatia. Acho o Chris Evans lindo. Tudo o que eu gosto e faço não é por ser mulher, é porque antes disso eu me vejo como um ser humano com direito sonhar e gostar do que eu quiser. Faça o mesmo você também.

Já sofri preconceito por gostar de metal, por exemplo. E veio de amigas da onça, não de amigos. Fiquei triste, muito. Mas fazer o quê? É o que eu gosto, faz parte de quem eu sou. Não vou abrir mão disso a menos que eu queira. Só posso ter fé que a minha teimosia abra o caminho para outras garotas.


Doro também apoia a ONG Terre des Femmes,
que ajuda jovens e mulheres necessitadas ao redor do mundo

3) Responsabilidade: toda escolha tem causa e consequência e uma vez que você disser ou fizer o que quer que seja, você vai ter que assumir. Doro, por exemplo, criou sua imagem baseada no heavy metal clássico, não cedeu ao grunge, sofreu a rejeição nos Estados Unidos, aceitou essa consequência, mas em 2000 conseguiu retornar.

Direto do Force Majeure, uma das primeiras que eu ouvi


Doro e Ji-In (Krypteria)

4) Apoio: nós mulheres somos amigas, não rivais. Podemos não concordar com tudo, mas devemos ao menos nos respeitar. Podemos não viver os mesmos problemas, ou se vivemos, não é na mesma intensidade, mas não temos razões para brigar. O mundo é grande, tem espaço pra todo mundo brilhar. Afinal se nós não nos respeitamos, unirmos e entendermos, é difícil exigir isso dos homens.

Moral da história, menos briga e mais disso: Celebrar!

Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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