Há 2 anos eu escrevi o último e até então mais recente post da série Álbuns Marcantes. Minha ideia era manter o formato de resenha, porém rechear com informações pessoais que explicassem o porque desse ou daquele álbum ter valor ao ponto de marcar a minha vida. E bem.. Depois de compartilhar no Facebook o post que eu fiz sobre o Infinite, álbum do Stratovarius que recentemente completou 15 anos de lançamento.. Resolvi ressuscitar a série outra vez.

Ferva sua panela de água, cozinhe o lamen, corte o sushi e tire o sakê do armário, porque hoje eu vou fazer uma das coisas que nós mais gostamos (top 5, se possível): falar de heavy metal japonês. Hoje é dia de X Japan e do épico Art of Life.


Os pioneiros do visual kei

Foi a melhor forma de desbravar o visual kei

Três álbuns marcaram o início da minha aventura pelo visual kei: o Jubilee, do Versailles e a dupla Blue Blood/Art of Life do X Japan. Foi uma surpresa muito boa descobrir que o rock japonês era bem mais diverso do que o estereótipo popularizado por bandas como the GazettE e Dir En Grey, sendo que o Dir En Grey eu nunca consegui gostar, apesar do esforço. Mas isso é assunto pra outra hora.

"Art of Life" surpreende de imediato pela duração: quase 29 minutos. No meu caso, entretanto, os anos me fizeram acostumar com músicas de longa duração (embora acostumar e ter paciência nem sempre andem lado a lado), então eu não me senti tão intimada. Sim, o álbum tem uma única música com 28:55 minutos de duração, mas, se você acabou de ler esse parágrafo e já desanimou ou torceu o nariz, eu aviso: não se assuste.

Apesar da duração a música é muito dinâmica e se você abrir o coração para ela, mal vai sentir o tempo passar... Segredo que eu vou contar quem me contou.


Segundo a Wikipédia o Tokyo Dome tem apenas 55 mil assentos

A história por trás da lenda

O mini álbum -formato de CD muito comum no Japão- foi lançado em agosto de 1993 pela Atlantic Records. Composta inteiramente em inglês pelo Yoshiki, baterista, líder do X Japan, e diva do Hardmetal Brasil, a música foi gravada com a Orquestra Filarmônica Real, sendo esse o primeiro álbum após a mudança do nome X para X Japan, bem como foi o primeiro a contar com o baixista Heath.

Obviamente por conta da duração, "Art of Life" não foi tocada ao vivo muitas vezes. A estreia aconteceu em julho de 1992 no Nippon Budokan, o popular Budokan. As outras duas foram em 30 e 31 de dezembro de 1993 no Tokyo Dome. Em 2008, 1 ano após a reunião da banda (separada desde 1997), a música foi tocada no primeiro show pós retorno, esse realizado novamente no Tokyo Dome. Esse show contou com um holograma usando as imagens da performance de 93 do guitarrista hide, que faleceu em 1998.

Porém a performance de 2008 não ficaria famosa só por isso. Ela também se tornou conhecida por ter sido interrompida imediatamente antes do solo de piano, após um colapso de Yoshiki. Essas histórias e outras o Waka contou no Biografias Comentadas, dedicado a banda:



A formação definitiva, que passou a contar com Sugizo após a morte de hide

"Art of Life" é parte da história do Hardmetal Brasil (!)

Momento Arquivo Confidencial: sim, "Art of Life" marcou a história do blog, a minha história.. Foi um mix das duas coisas. Bem no começo de tudo, quando o Hardmetal Brasil estava nos primeiros passos da transição de blog de downloads > blog de notícias, Art of Life e Blue Blood foram as primeiras recomendações do Waka pra me apresentar a banda, e como ele mesmo tinha upado os CDs aqui no blog, ficou fácil.

E é legal lembrar disso, porque me faz rir de lembrar como nossa amizade começou. O visual kei foi um ponto em comum que nos aproximou, ele conhecia o gênero e eu tinha vontade de conhecer, dupla dinâmica formada. Nós falávamos tanto de metal japonês que houve o tempo em que circulou entre nós dois a brincadeira de mudar o nome do blog para Hardmetal Japão. Risos.

Ele vivia dizendo que a música passava rápido, então mal dava pra sentir o tempo passar. Familiar? Sim, eu aprendi com ele, risos. Da curiosidade eu comecei a realmente gostar da banda, ouvir os outros álbuns, e entre horas de conversa em que eu e o Waka ficávamos perdidos tentando ter ideias para o blog (igual hoje em dia, mas ligeiramente -pra ser educada- pior) a banda também virava trocadilho, principalmente depois do show no Brasil onde o Yoshiki foi bem discreto (só que ao contrário) em dizer que amava gualaná. Chorei.


Sem a produção Toshi é um cara normal, que nunca 
na vida teria pensado em virar parte da história do metal japonês


Os 28:55 minutos mais épicos da sua vida

Lá no começo eu disse que "Art of Life" é bastante dinâmica, certo? Agora eu explico a razão desse dinamismo: a inspiração na famosa Sinfonia N° 8 de Schubert, também conhecida como Sinfonia Inacabada. (Fonte) Esse pequeno detalhe é 500% importante para evitar que a música caia no tédio e irrite quem ouve, porque proporciona um encaixe muito bem feito entre partes com melodias às vezes completamente diferentes, fugindo do padrão seguido por muitas bandas de rock e metal progressivo.

Outro ponto em comum com a estrutura de uma sinfonia é que diferente do concerto, a sinfonia não possui destaque de nenhum instrumento, sendo que cada um possui várias participações ocasionais. (Fonte) Você nota isso na prática através do comportamento da bateria e principalmente, do piano.

Dividindo a música por partes (Fonte), ficamos mais ou menos assim:

0:00 - 2:58

Eu gosto bastante desse começo. Ele é suave, dá a impressão de que vai ser uma power ballad quando é justamente o contrário. A orquestra surge em torno dos 25 segundos e aos poucos cresce em volume até que o vocalista Toshi começa a cantar. Aí vem outra revelação para quem nunca ouviu a música: a letra de "Art of Life" é totalmente em inglês.

O X Japan varia bastante o uso de inglês e japonês, e ganha vantagem extra pelo fato do Toshi ter boa pronúncia do inglês, sendo um dos raros vocalistas japoneses (juntamente com o Sho do Galneryus) que supera as barreiras da pronúncia do inglês pastel de flango.


2:59 - 8:14

Já essa parte destoa totalmente da anterior. É a vez do X Japan brilhar num speed metal muito bem conduzido pelo Yoshiki na bateria, dá gosto ouvir a forma rápida e harmoniosa na qual ele toca. As guitarras agora ficam mais evidentes, solos nervosos, já as orquestrações ficam mais suaves, às vezes quase imperceptíveis. Em alguns momentos Toshi divide espaço com uma voz feminina narrando.


8:15 - 13:38

A correria de antes acalma e esse trecho começa mais orquestrado, mas ele é bem breve. Logo entra outra parte que sempre me deixa em dúvida: refrão ou pseudo refrão? Tanto a melodia quanto a letra da música vão sempre em frente, mas ambos passam pelo I believe in a madness called now (...)  mais de uma vez, então tecnicamente é um refrão. Passado ele a banda volta ao speed metal.


13:39 - 15:00

Voltamos a suavidade dos violinos e da narração feminina, e novamente quem dá as caras é o refrão-que-não-é-refrão. A voz do Toshi some lentamente em fade out, e chega a melhor parte da música.


15:01 - 24:18

Eu amo de paixão essa parte. O Waka bem sabe. Aqui começa o solo de piano fantástico do Yoshiki. Ele começa gentil, repete várias notas até o segundo piano entrar em cena, e ambos vão fazem dueto até certo ponto, evoluindo para um confronto doido entre os dois. Essa parte é confusa, você sente como se o Yoshiki literalmente começasse a dar cabeçadas no piano, porque o solo vira um nonsense só.

Mas ela não é menos genial, pelo contrário. Eu acredito que ela adiciona toda uma carga emocional extra a música. Ao fundo o outro piano vai repetindo as mesmas notas do começo, e aos poucos o momento surtado do Yoshiki vai terminando e ficando mais normal. Existe um radio edit da música sem o solo de piano que eu escolho ignorar com todo carinho do mundo. "Art of Life" sem o solo de piano é Buchecha sem Claudinho.


24:15 - 28:55

O piano também dá adeus em fade out e voltamos a correria do speed metal. É muito refrescante ela vir justamente depois de um trecho calmo e simples (por usar só 1 tipo de instrumento), e ele segue até o fim, com retorno da orquestra, o feeling épico e tudo o que "Art of Life" merece. Um grand finale perfeito.


Uma diva sempre sabe o que faz, confie no Yoshiki sempre

Obra de arte

Só dá para dizer isso do mini-álbum Art of Life. Se hoje eu saísse do Hardmetal Brasil, ele seria um dos legados que eu levaria comigo. É uma música de qualidade inquestionável que eu adoro e tenho um carinho todo especial e pessoal. Se você quer desbravar a discografia do X Japan (que nem é tão grande assim), comece por Art of Life. Não vai ter erro, é amor a primeira ouvida.


É de arrepiar.. Solte o play sem medo

Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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