Chega num determinado momento da vida em que ela te ensina duas coisas: a hora de insistir e a hora de desistir. Eu sei que não tem sentido, afinal nós defendemos muito a ideia do we are the champions, mas sim, isso acontece. Só que infelizmente muita gente não entende o recado, e no caso das bandas o resultado é chutar cachorro morto por meses ou até mesmo anos.

É tudo uma questão de abordagem.

Banda X vive Y anos no formato Z, mas como tudo muda e passa (incluindo a uva), Banda X pode se ver forçada a mudar para o formato Z+1 caso queira viver 2x Y anos. Sim, a matemática explica perfeitamente e isso me assusta. Foi nessa armadilha que eu vi o Scorpions pronto pra cair depois de Humanity: Hour I. A banda patinou numa possível aposentadoria, fez que foi, voltou, lançou 2 álbuns de estúdios medianos, 2 álbuns ao vivo que eu mal dei atenção, por isso fiquei 50/50 quando anunciaram o lançamento do Return To Forever.

Sendo assim, fica a dúvida:



Por que ouvir o Return To Forever?

Porque todo o medo que eu tive não passou disso. O álbum supera até mesmo as expectativas mais positivas, pois o Scorpions resgatou de forma fascinante o rock clássico e o hard rock que enche de energia, deu vida à músicas com instrumentos sincronizados, animados, que se bobear dão vontade de dançar, mostrando que o álbum tem um toque de descontração super bem-vindo. Isso me surpreendeu, pois durante anos eu imaginei que só o Scorpions mais heavy me agradaria.

Return To Forever deixa você apaixonado(a) rápido. Todos os elementos que tornaram os alemães famosos dão as caras, e é estranho + curioso esse som só agora, não é? Sim, eu achei. E fui pesquisar, claro. Difícil hoje em dia algo ser obra do acaso e grande foi a surpresa ao descobrir que eu estava certa. As músicas de agora são na verdade músicas antes não utilizadas nos álbuns Blackout, Love at First Sting, Savage Amusement e Crazy World!

Com isso nós voltamos ao passado sem apelar para os hits conhecidos, coletâneas, e porque não, até dá para criar novos hits. Isso finalmente explica porque a banda está tão afinada! A ideia foi bem sacada e veio no momento certo, ajudou o Scorpions a ganhar de novo a relevância merecida e deixar os fãs mais felizes do que nunca.


Dizendo sim para a reciclagem

As músicas foram compostas entre o começo dos anos 80 e 2014, e lidam abordam vários assuntos. "Rock My Car" é uma das mais antigas e fala sobre dirigir na Autobahn alemã, "House of Cards" fala sobre affairs amorosos, o amor e amores que se transformam em ódio, o elemento mais típico do som do Scorpions que nunca pode faltar. Já "All For One" é sobre a filosofia de união e amizade da banda.

Outras são novas, pasme. "Going Out With a Bang" fala sobre como a amizade dos integrantes sobreviveu aos períodos mais importantes da banda, e tem influência notável do blues. Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, o quê dizer dessa "We Built This House" que eu já ouvi mil vezes, tenho como toque do despertador e considero deveras? É uma das músicas do ano. E eu tenho a teoria de que ela é filha perdida de "Rock You Like a Hurricane" com "The Game of Life", porque a semelhança é grande.

Mas falando sério, "We Built This House" é fantástica em todos os níveis possíveis. A letra reflete sobre os 50 anos de carreira do Scorpions, filosofias e lições aprendidas na vida. O vocalista Klaus Meine explica que no fim, ela conta a nossa história. Nós construímos essa casa tijolo por tijolo e ardorosamente. (...) Nós enfrentamos tempestades severas, mas a casa suportou tudo, se mostrando ser estável e resistente ao tempo, o quê me deixa 5 vezes feliz de saber por causa da análise que eu fiz do clipe, e que você pode ler aqui.

Calma que ainda não acabou. Eu falei do Humanity, certo? Tem dedo dele no Return To Forever! A bela "Eye of The Storm" era para ter entrado no álbum, o que não aconteceu. Ela me lembrou de imediato "Love Will Keep Us Alive" e a 30 vezes fantástica "The Future Never Dies".

(Fonte de todas as referências acima)


Carro usado também anda

Adorei ver a banda esbanjando a harmonia dos anos 80 com a tecnologia de 2015 e a experiência de 50 anos. Até o baterista James Kottak, que ano passado foi preso por desacato ao islã e excesso de bebida, ganhou uma espécie de ultimato com o álbum: ou você entra na linha e participa das gravações ou vai para o chuveiro, o que graças a Deus não aconteceu. Qualquer ausência seria muito sentida, fosse o baixo não deixando pontas soltas nas músicas, os riffs elétricos das guitarras, a bateria empolgante e os vocais, que parece até que pararam no tempo.

(Por parar no tempo entenda vocais que não envelheceram)

No fundo do meu coração esse álbum é a continuação oficial do Humanity, pois ele mantém a mesma qualidade de material e de produção, que ficou sob responsabilidade de Mikael Nord Andersson (Björk, The Rasmus) e Martin Hansen (The Veronicas, The Rasmus, João Bosco, Apocalyptica). Detalhe: ambos trabalharam na produção do Sting In The Tail e Martin trabalhou no MTV Unplugged in Athens, Comeblack, e é um dos compositores de "The Game of Life", todos do Scorpions. (Fonte) Oh, a ironia.


Destaques

"We Built This House"
"Hard Rockin' The Place"
"Eye of The Storm"


Conclusão

O Scorpions aprendeu a hora de insistir em umas ideias e desistir de outras. Afinal, 50 anos de carreira não são 50 dias. Os caras têm experiência e bom senso. Gostei da ideia de usar as músicas nunca gravadas, é como criar um álbum the best of com material inédito, juntando a alma da época de cada faixa e combinando com a tecnologia atual que poderia (e conseguiu) melhorar o resultado final. Foi unir o melhor de todos os mundos.


Nota de rodapé: faixas bonus

Pra fazer essa resenha eu ouvi a versão iTunes que vem com cinco faixas extras sensacionais: "The World We Used to Know", a dançante alla Grease, "Dancing with the Moonlight", "When the Truth Is a Lie""Who We Are" e "Delirious", que se tivesse entrado na tracklist regular teria caído dos destaques sem fazer esforço, porque ela tem um refrão 500% matador. Elas compensam muito o investimento.


Tracklist
1. Going Out with a Bang
2. We Built This House
3. "Rock My Car
4. "House of Cards
5. All for One
6. Rock 'n' Roll Band
7. Catch Your Luck and Play
8. Rollin' Home
9. Hard Rockin' the Place
10. Eye of the Storm
11. The Scratch


Bonus da versão iTunes
12. The World We Used to Know
13. Dancing with the Moonlight
14. When the Truth Is a Lie
15. Who We Are
16. Delirious


Formação

Klaus Meine - vocais
Matthias Jabs - guitarras, violão
Rudolf Schenker - guitarras, backing vocais
Paweł Mąciwoda - baixo
James Kottak - baixo, backing vocais



Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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