Confesso que eu fiquei um pouco relutante sobre a "necessidade de fazer essa resenha", porque tudo o que o Helloween apresentou no novo álbum não é inédito... Mas ainda assim seria digno de valer um texto? Sim. Depois de bastante pensar, rabiscar e ouvir as músicas, encontrei 2 elementos importantes e interessantes em My God-Given Right, que salvam o play de cair 100% na mesmice. E são eles que eu quero dividir com vocês.



Por que ouvir My God-Given Right?
Porque o álbum é super amigável. Happy metal. Já vi metalheads que não gostam do termo, porém ele define bem o caso. O Helloween manteve a veia clássica do som melódico e cativante, embora tenha deixado o speed metal corrido e cavalgado que fez absoluto sucesso em Walls of Jericho (1985), e nos dois Keeper of the Seven Keys (1987 e 1988). Aqui, em My God-Given Right, o que você ouve é uma banda mais cadenciada, e que errou por pouco em tornar o álbum uma experiência quase tão boa quanto foi Straight Out of Hell.

Entretanto, mesmo Straight Out of Hell sendo ótimo, méritos pela decisão consciente de se afastar da atmosfera séria dele. Ao invés disso, os alemães comemoram os 30 anos de carreira com algo mais positivo e até motivacional, e foi esse o primeiro elemento que fez valer a resenha, pois eu gostei demais dele. Motivo? Foi uma escolha justa, porque mesmo valorizando o aspecto emocionalmente "violento" do metal, o gênero ainda melhor para comunicar mensagens positivas.


O direito dado por Deus... De tirar os haters do sério
Os abóboras decidiram voltar ao heavy metal clássico oitentista, sem direções específicas. Para eles, acreditar no direito dado por Deus é isso: a banda poder fazer o que quiser e assim cumprir a sua visão musical sem quaisquer limites, o que eu compreendo. Um músico, assim como o escritor ou pintor, é um artista, e mesmo tendo milhões de fãs que adoram o seu trabalho, antes de tudo ele usa a arte como válvula de escape para as vontades dele.

Eu respeito isso. E outra, também gostei muito da explicação que o vocalista Andi Deris deu sobre a origem da faixa título, e por tabela o nome do álbum. Ele diz que veio do pai dele, de algo que ele uma vez lhe disse ao terminar a escola e não saber o que fazer da vida:
Você tem um grande ponto de interrogação na sua cabeça: o que você deve fazer? Eu definitivamente tinha esse sonho de fazer música como tantas crianças têm, mas eu fui muito feliz por ter um pai que me apoiou completamente. Ele disse 'você é o meu único filho – se eu ver você feliz, você me faz feliz, e é o seu direito dado por Deus para fazer o que você quiser com a sua vida, ou pelo menos tentar. E faça o que você fizer, eu estou lhe apoiado.' E ano passado meu filho estava mais ou menos me fazendo a mesma pergunta, então isso me fez voltar aos dias com meu pai. Eu disse ao meu filho o que seu avô me disse, e pensei que seria um belo título para uma música.
Essa entrevista foi o segundo elemento que fez valer a resenha, porque veja.. Eu valorizo a intensidade emocional, as letras-desabafo que fazem gritar, chorar, que deixam elétrico(a). O heavy metal tem um efeito de catarse importantíssimo, permitindo extravassar as frustrações de anos numa única música. Eu valorizo mais do que você pode imaginar, vide o valor que álbuns feito Pariah's Child (Sonata Arctica) ou Humanity: Hour I (Scorpions) tem para mim.

O que eu não valorizo e sou até contra, são as bandas que passam do limite, se escondendo atrás da força do metal para propagar ideias de ódio, preconceito, e fazer apologia a ideias e/ou comportamentos lamentáveis. Ah, mas é só música, você diz. Não, não é. Isso de só música não existe. A música é uma forma de comunicação igual a publicidade, que vende ideias, mesmo que as pessoas que as vendam, não exatamente acreditem nelas.

Ou seja: ideia X pode não afetar você, mas pode afetar o seu amigo. Ideia Y pode não afetar nem você, nem seu amigo, mas ainda assim:  existem limites que todo artista deveria respeitar.


O direito dado por Deus... De quebrar os estereótipos do metal
Existe diferença entre a liberdade criativa, e usar a liberdade criativa como desculpa para incentivar essa violência física e/ou verbal. My God-Given Right, entretanto, felizmente vai na contramão de tudo isso com um discurso caloroso e acessível, as vezes até soando "meio cristão."

E para quem nunca saiu da caixinha do óbvio, isso vai ser um desespero. Onde uns viram "música de gente fresca", eu vejo música de gente que passou 30 anos na estrada, viveu, e resolveu refletir sobre isso. Maduramente. Achei ótimo. Nesse sentido o álbum vem para fazer companhia ao Return To Forever, do Scorpions, ao Toto XIV, do Toto, e aparentemente, ao VII: Sturm Und Drang, do Lamb of God.


Destaques
"My God-Given Right": não consigo tirar da cabeça a semelhança entre parte da melodia, e o tema de Aquatic Ruin de Sonic 2. Isso até me ajudou a gostar mais da música, RISOS. A combinação bateria + guitarras é matadora, se desenvolve bem e carrega a música sem correria. Foi a performance vocal do Andi Deris que eu mais gostei também;

"Stay Crazy": os primeiros 20 segundos dão a impressão de que é uma power ballad, e quando você percebe.. Ela fica animada! É quase o Don't Stop Believing do Helloween. A letra fala de como a banda não é considerada "normal", mas que é assim mesmo como ela quer viver.. Doida.

"Lost In America": música bem divertida e baseada numa história vivida pela própria banda. O refrão é ótimo, passa a forte sensação de "hino" que é comum no som oitentista. Destaque para a leve quebra de tempo no "We are lost, lost in America", daqueles detalhes simples, interessantes, que agregam valor positivo e eu presto atenção. 

Conclusão
Tal como você percebeu, My God-Given Right se destacou pelo conceito mais do que a execução. Os riffs são marcantes, banda está entrosada, Andi Deris manda bem nos vocais. Só que nada disso é novo para quem conhece as abóboras, então o álbum pode fica com cara de mesmice. Eu acredito que o problema teria sido amenizado se tivessem cortado a tracklist de 13, para 8, ou até 9 músicas.

É um álbum livre de compromissos, embora não tenha me conquistado por completo: ouvi as 6 primeiras faixas sem problema, porém The Swing of a Fallen World acabou quebrando a energia da audição, que felizmente Like Everybody Else e Creatures In Heaven resgataram. Mas se eu considerar o que eu gostei vs o que eu não gostei, até indico o álbum.

Ah! E destaque para o clipe de My God-Given Right, que eu achei bem bacana.


Tracklist
1. Heroes
2. Battle's Won
3. My God-Given Right
4. Stay Crazy
5. Lost in America
6. Russian Roulé
7. The Swing of a Fallen World
8. Like Everybody Else
9. Creatures in Heaven
10. If God Loves Rock 'n' Roll
11. Living on the Edge
12. Claws
13. You, Still of War

Formação
Andi Deris – vocal
Michael Weikath – guitarra
Sascha Gerstner – guitarra e vocal de apoio
Markus Grosskopf – baixo
Dani Loeble – bateria




Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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