Sobre a coragem que Ava DuVernay teve para rejeitar a direção de "Pantera Negra"


Certa vez eu publiquei a notícia de que Ava DuVernay estava em negociações para ser a diretora de "Pantera Negra". Você pode imaginar o cenário? Uma mulher (1), negra (2) dirigindo um filme da Marvel (3), sobre um herói negro (3)? Parecia que o estúdio estava prestes a dar um dos passos mais históricos do cinema, porém não muito tempo depois Ava veio a público dizer que o acordo não tinha sido fechado.

Para a minha total decepção.

A poeira baixou, o tempo passou, e a frustração ficou no meu inconsciente. Até que um belo dia saiu essa notícia onde ela com detalhes e uma maturidade louvável, sobre os motivos que levaram a rejeição da proposta, no mínimo deveras tentadora. Foi corajoso e justo, e essa decisão só aumentou o respeito que eu havia criado por ela, me fazendo ficar bem menos frustrada. A declaração foi dada ao BlogHer, e eu quero dividir a minha opinião com vocês sobre parágrafo por parágrafo.

Finalmente.

Liberdade é um material precioso, e Ava tem noção disso

Tudo começou aqui:
Para mim, foi um processo de tentar descobrir: são essas pessoas com as quais que eu quero ir para a cama? Porque é realmente um casamento, e para isso seriam três anos. Seriam três anos de não fazer outras coisas que são importantes para mim. Por isso foi uma questão de "isso é importante o suficiente para que eu faça"?
Achei incrível. Eu vivi essa encruzilhada antes, embora é claro, em escala muito menor. Nunca falei sobre o assunto, mas certa vez eu recebi o convite para ser staff do Within Temptation Brasil, e, você sabe que o Within Temptation é uma das minhas bandas favoritas. Entretanto, eu rejeitei o convite, da forma mais educada possível. Motivo? Eu estava totalmente focada no começo do HMBR, que na ainda era Hardmetal Brasil. Às vezes eu lembro disso e fico pensativa. Agora... Se eu me arrependo? Não.

Certas parcerias são comprometedoras feito um casamento. Talvez a diretora nunca mais tenha uma chance desse calibre, ou talvez tenha uma melhor ainda, porém ela decidiu que nenhum sucesso e dinheiro poderiam ficar acima da sua liberdade criativa. Foi uma escolha corajosa e consciente, tal como foi a minha, da qual eu também não me arrependo: eu sei que hoje, estando a frente do HMBR e sendo formada em publicidade, ser staff de um site oficial acrescentaria ao currículo...

... Mas se eu sinto que não vou ser capaz de cumprir a minha parte da parceria, é melhor não dizer nenhuma palavra, certo? Porque a outra opção seria pular dentro do barco, trocar os pés com as mãos e queimar o meu filme totalmente, perdendo essa coisa que hoje em dia é tão difícil de conquistar: credibilidade. Ainda mais na internet.


Ava é fiel aos seus ideais

O que no mundo atual é cada vez mais raro:
Em um ponto a resposta era sim, porque eu achava que havia valor em colocar esse tipo de imagens na cultura numa forma universal, grande, de certa maneira: emoção, ação, diversão, todas essas coisas, e ainda assim ser focada em um homem negro como herói - o que seria muito revolucionário. Estes filmes da Marvel vão a qualquer lugar de Xangai a Uganda, e nada que eu provavelmente irei fazer atingirá esse tanto de pessoas, então eu encontrei valor nisso. E foi assim que as conversas continuaram, porque isso é o que eu estava interessada. Mas todo mundo estava interessado em coisas diferentes.
Fiquei extremamente feliz que tal como eu falei acima, a diretora tenha esse tamanho de consciência sobre a decisão que ela tomou. Que pode ter sido a pior da sua vida, mas que ao mesmo tempo foi a melhor, pois não estava alinhada aos seus ideias, coisa que muita gente hoje em dia não respeita. Hoje em dia toda visão de mundo, filosofia, ideal, opinião, sentimento (...) é negociado por um preço porque dane-se o meu amor a projeto X, o importante é que o Y pague bem.

Eu ouvi um bocado dessa lógica na faculdade: "você, como publicitário, às vezes vai trabalhar com produtos não alinhados aos seus ideais", e isso ainda me causa calafrios. Imagina fazer uma campanha para promover uma marca de bebidas, por que isso daria a estabilidade financeira dos sonhos? Imagina fazer uma campanha para promover uma marca de bebidas, sabendo que o álcool foi um dos motivos que matou o meu avô?

Imagina.

Sem falar do ponto que eu mais critico: a incapacidade da Marvel trabalhar fora da caixinha do óbvio. Lógica publicitária. É mais fácil ficar num formato X de produto estabilizado, conhecido e dentro da zona de segurança. Afinal, se o formato X rende milhões de dólares, por que mexer no time que está ganhando?

A lógica não é errada, mas para o mundo da Cauda Longa, não é uma coisa que eu gosto muito de ver.


E que diabos é a Cauda Longa

A Cauda Longa foi idealizada por Chris Anderson, e é a coisa mais legal que eu aprendi na facudade:
A teoria da Cauda Longa diz que nossa cultura e economia estão mudando do foco de um relativo pequeno número de ‘hits’ (produtos que vendem muito no grande mercado) no topo da curva de demanda, para um grande número de nichos na cauda. (Fonte)
Traduzindo: os produtos de uma empresa estão cada vez mais segmentados. Você tem a Coca-Cola vendendo Coca-Cola, mas N produtos diferentes, que atendem a públicos alvo diferentes, mesmo que a "Coca" ainda seja a rainha da marca. Agora se você quer ver um filme da Marvel com abordagem X, porque você é consumidor e tem o direito de procurar o produto que mais te agrade, talvez não encontre, porque o estúdio ainda está preso a abordagem Y.

Ficar preso a um formato desgasta a marca. Isso só não acontece com a Marvel em grande escala, pois o carro chefe dela é o humor. Só que ao mesmo tempo você nota o quão dependentes os filmes ficaram desse humor, às vezes encaixando piadas e trocadilhos para mim, bem fora de momento. E tudo em excesso me irrita. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra.


Ava tem visão de longo prazo

A consciência dessa mulher conquistou o meu coração:
Aquilo que carrega o meu nome significa algo para mim - estes são meus filhos. Esta é a minha arte. Isto é o que vai viver depois que eu me for. Por isso é importante para mim que isso seja fiel a quem eu era, neste momento. E se há muito compromisso, ele realmente não seria um filme de Ava Duvernay.
Fantástico. Só isso que eu consigo dizer. Rejeitar um convite da toda poderosa Marvel? Exige mais coragem do que para aceitar. Pessoas como Ava DuVernay veem isso antes, pessoas como Joss Whedon acabam vendo isso só depois. O estúdio te pressiona, os fãs te pressionam, 5 milhões de expectativas te pressionam, mas quem assume esse compromisso (aka trabalhar para a Marvel, e não com a Marvel), já deveria saber, em tese, que esse tipo de coisa vai acontecer.

#Oremos pelos irmãos Russo.

Num mundo onde as contas se acumulam, e os ideais tem preço, o exemplo da diretora Ava DuVernay é, definitivamente, incrível.

Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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