Hoje é dia de Atenas (!), e nós vamos pisar em ovos. Muitos. ovos.

Há um tempinho (2 ou 3 anos), eu era financeiramente quebrada feito agora, mas eu tinha decidido que queria um boneco da minha então nova musa da Marvel: Natasha Romanoff, interpretada pela crush de muita gente (me inclua nessa), Scarlett Johansson. Entretanto, para a minha surpresa e choque, das quatro lojas que trabalham com brinquedos por aqui, nenhuma tinha um boneco Hasbro sequer da Viúva Negra. Vi até o Duende Verde, mas nada da única mulher que integra os Vingadores.

O tempo passou, meu sangue esfriou, o HMBR cresceu e eu cheguei aqui, falando de nerdices e me estressando com elas. Na lista das que fazem perder o cabelo diariamente ficou justamente a Hasbro, com o seu sexismo burro que anda de mãos dadas com a falta de bom senso da Disney. Ausência de bom senso essa que se estende agora à Star Wars: O Despertar da Força.

[Se você não viu o filme, aviso: DAQUI EM DIANTE O TEXTO TERÁ SPOILERS]

Rey é um marco histórico da franquia Star Wars, quase tanto quanto a Leia. Mulher, sim, porém auto-suficiente, insistente com a teimosia do Finn em segurar a mão dela, tem sentimentos, é lutadora, catadora de sucata, e você se apaixona de vez quando ela diz que sabe pilotar, e pilota, nada menos do que a Millenium Falcon, ganhando até a simpatia do Chewbacca, que eu torço com todas as torcidas do Brasil para se tornar o novo companheiro dela. Sem falar que: Rey é a primeira Jedi protagonista ever.

"Glorioso ano, esse 2015?" Você vai dizer e é, eu concordo com você.

Só que ainda tem gente presa no outro século, pois a Hasbro simplesmente excluiu a Rey da sua linha de produtos. Justo ela, a personagem principal do filme. Infelizmente não é novidade. Hasbro, Disney e Marvel lidarem muito mal com as suas personagens mulheres e linhas de produtos, ignorando uma brecha ótima, pois mais produtos das personagens, mais vendas, mais dinheiro, um win-win pra todo mundo. Nem a Capitã Phasma, antagonista interessante, porém pouco explorada, escapou da foice sexista.

Vou ficar nos casos Vingadores e Star Wars, mas recomendo forte esse artigo do The Daily Beast, que é fantástico e traduz 100% do que eu penso. Dito isso, vamos lá.


Eu sou o público. Eu quero escolher o que comprar

Na vida das mulheres que gostam de cultura pop/nerd, o "cliente tem sempre razão" é um conceito vago, quase inexistente. Lojas, empresas, estúdios, muita gente ainda tenta nos dizer o que consumir, ou seja, se você quiser produtos da Rey ou da Viúva Negra, vai precisar fazer a Globeleza e sambar. E isso é frustrante demais para mim, mulher, semi nerd, profissional da área de publicidade. Porque é uma burrice cada vez mais sem explicação.

Eu, Bruna, sou o público alvo. Não me interessa a opinião do presidente da Marvel, quanto o Robert Downey Jr é legal, se eu quero um boneco da Viúva Negra sem ter de gastar 200, 500, mais de 1000 reais numa figura de ação, ou quero comprar os dois, é isso que eu quero ter. O meu dinheiro é meu, então eu decido onde gastar. Estamos virando para 2016 e há muito tempo eu cansei do paternalismo decidindo por mim quais produtos vão me agradar.

Pior. Veja: há um tempo a Hot Toys lançou um set lindo da Rey com o BB-8, mas como todo mundo sabe, tudo que vem da Hot Toys é caro. Como você espera uma menina de 10, 12 anos, que assistiu O Despertar da Força e se encantou pela Rey, gastar um dinheiro que ela não tem, em algo que ela quer ter? Como você espera uma menina de 10, 12 anos, que gosta da Viúva Negra, gastar 215 reais num boneco que nem é para brincar, quando existe um de 30 reais, próprio para brincar, mas do Hulk?

Acessibilidade é importante.



"Mas 'boneco(a) de menina' não vende"

Mentira. É a mentira mais cascuda e antiga que circula por aí. Se você ver na Toy Shop, por exemplo, apesar da crise, o set da Rey com o BB-8 já está esgotado. Demanda existe, e se não existir (o que eu duvido), meus amigos publicitários sabem a mágica de tornar qualquer produto, muito ruim ou muito bom, num sonho de consumo. Nós passamos 4 anos na faculdade para isso (entre outras coisas). Nós fazemos sacolas virarem um sucesso. Como não conseguir fazer um boneco da Rey vender?

"Ah, mas é coisa da sua cabeça", certa vez disseram dois garotos que discutiram comigo sobre esse caso da Viúva Negra. Imagine eu, normalmente tão tranquila, tentando explicar algo que eu nem era obrigada a explicar, lendo uma série de bobagens de gente que ainda tem pensa que eu, por ser mulher e (semi) nerd, tenho que provar o quanto eu sou digna disso. De repente virei o Thor? Vou ganhar o Mjolnir no natal 2016?

Por outro lado, a DC Comics vem seguindo a caminho oposto. Lançou uma linha de bonecas pela Mattel. Incluiu a Mulher Maravilha nos novos sets de LEGO, nos pôsteres e no trailer de Batman vs Superman. Tem carteira dela. O filme da Mulher Maravilha chega antes de "Capitã Marvel." Criaram as Bombshells e colocaram num gameSupergirl teve uma audiência de estreia meteórica. Supergirl ganhou estátua.

Alguém, por favor, me explica isso?

Seria a DC, burra?

Ou seria ela esperta, por estar explorando o Calcanhar de Aquiles da Marvel e conquistando a atenção desse público? Porque vem dando certo comigo, e lá e cá eu venho pesquiso algo sobre as personagens (adorei descobrir as Bombshells), assisto Supergirl, e estou 100% pronta para bater cartão nas estreias de Batman vs Superman e Mulher Maravilha.


O futuro é meio confuso
Fizemos um bom avanço na representação feminina em 2015, mas ainda tem muito preconceito para desconstruir. Acho ótimo as pessoas cada vez mais vocais, apontando os vacilos da Hasbro, Disney, Marvel e tantas outras companhias, não aceitando tudo de cabeça baixa. Que todas as frontwomans nerds tenham seu espaço, independente de serem negras, asiáticas, latinas, europeias, se forem boas personagens, eu quero e tô aceitando.

Menina/Garota/Mulher, um recado: o dinheiro é seu, a vida é sua, você tem sim o direito de gastar ele num boneco da Rey, numa camisa da Viúva Negra, se assim quiser. Se alguém disser o contrário, insista. Grite, não fique quieta, porque sendo a "garota legal" dificilmente você vai acabar conseguindo alguma coisa dessa indústria.

Garotos, isso não se trata de tomar o lugar de vocês. Não tem nenhuma ditadura aqui. Não é uma competição. Thor, Hulk, Batman, Homem-Aranha, Arqueiro Verde, Superman, todos eles vão ficar no seus devidos lugares, sem tirar nem por. E vão ficar principalmente no que depender de mim, que não sou ligada nesses personagens. O planeta tem mais de 7 bilhões de pessoas, e definitivamente o que mais a gente tem é público e espaço justo para todos os personagens, sejam homens ou mulheres, sem que ninguém roube a sombra de ninguém. (para quem acha que isso é um pecado capital digno de morte)

Sobre Bruna

Nerd preguiçosa, pseudo metalhead, cristã, metida a jornalista, mas formada em publicidade. Faz-tudo, sofre-com-tudo, nunca-dorme-direito. Expert em virar criança com Pokémon e Saint Seiya.

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1 comentários :

  1. Visitando os textos todos, comecei por esse e adorei!!

    Simplesmente tudo que tinha de ser dito sobre o assunto. Gosto de bonecas de princesas? Gosto e inclusive tenho a minha Branca de Neve bem guardada comigo. Quero minhas heroínas também? Quero e quero muito. Não tem mistério. Até porque, personagens carismáticos e cativantes como a Viúva e Rey são demandados por ambos os públicos, masculino e feminino. Chega de achar que super herói é só pros moços e muito menos de que eles não vão gostar de ter uma boneca na coleção deles dos Vingadores ou do Star Wars. :)

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